passar os dedos pelas lombadas
e que os livros fiquem lidos
que seja tudo fácil sem trabalho
sem esforço nem tortura
apenas uma neutra passagem obscura
por uma rua límpida e fácil
onde todos me amam
e a rapariga bonita
se ajoelha
não voto em obama não voto no sonho
Nessa noite eu estava obcecado pelas mamas dela a respirar ao meu lado por baixo do sorriso entendido que ela fazia quando íamos ouvir conferências ou debates ou uma merda dessas qualquer sobre livros ou teatro ou qualquer coisa que a convencesse que estávamos a ter uma vida muito cheia e cultural e significativa
e a mim só me apetecia estar em casa a foder ou pelo menos a ler ou a passear com ela e a encontrar sítios para nos comermos como sempre fazíamos
mas mesmo assim o sorriso era lindo era como pensar numa rapariga muito certa e limpa e adequada daquelas que até votam preocupadas no bloco de esquerda e escrevem teses sobre livros ou sociologia e depois estar a comê-la contra uma parede, a ver-lhe as nádegas a comprimir-se perante as minhas investidas, a desfazer-lhe o cabelo e senti-la a vir-se em redor do meu pau
mas não vamos adiantar-nos porque isso pode ser fantasia de macho frustrado em sessão intelectual de masturbação genial e agora preciso que imaginem os debatentes, com dois paus de vassoura no cu, parece que discutiam a fome no mundo
mas no fundo só diziam as mesmas coisas de sempre
sobre a literatura que era uma forma de fazer não sei o quê
e diziam com a maior das descontracções, naquela forma estranha de debater em que todos concordam com todos
que a literatura é ter cuidado com as palavras, é dizer o máximo possível com o mínimo de palavras possível, que é preciso trabalhar, esforçar-nos para retirar tudo excepto o essencial e que a diferença entre a literatura e o mero entretenimento é esse cuidado com as palavras e pelos vistos o cuidado com as palavras é esforçarmo-nos por não as usarmos porque elas, pelos vistos, são para não se usar
e eu obviamente ri-me baixinho para isto e no silêncio inteligente da sala olhei para o lado e senti o ouvir atento dela e as mamas a respirarem pelo decote de intelectual que assume a sua sexualidade
e oh quanto eu gostava de assumir a sexualidade dela naquele momento, naquele preciso momento, tentei ser telepático e convencê-la que um broche era a coisa radical e intelectual a fazer
ali mesmo perante os vizinhos embasbacados ou talvez até não talvez até se limitassem apenas a ouvir interessados os participantes e a sentirem pelo canto dos olhos o que ali faríamos
e ao mesmo tempo que a desejava toda que queria foda com uma guloseima criminosa senti vontade de empanturrar-me de palavras porque o que eu queria era calar aqueles gajos que gostam de palavras e querem quase proibi-las, racioná-las ao estritamente necessário
só para os enervar apetecia-me ler livros muito cheios de palavras desnecessárias enquanto ela me cavalgasse e eu lia eu lia
e que giro que era calá-los, calá-los até talvez com a arfar de nos fodermos ali mesmo imediatamente no meio do auditório onde decorria tão importante sessão
mas acabei por pegar na mão dela e levá-la até à biblioteca, tinha agora uma nova fantasia
ouvia as vozes deles lá ao longe, na sala que derramava uma luz fraca cá para fora, estávamos na torre duma faculdade de Lisboa, vi a cidade e senti-me muito bem e preparado para ela, sentia a mão dela, a respiração de nervoso dela
e o sorriso, claro, e o cabelo bonito, apanhado exactamente como eu gosto
e entrámos como ladrões na biblioteca fechada
e lá fomos até à secção de literatura e entre risos e mãos que tapam bocas empurrei-a contra as prateleiras e comecei a afogá-la em mim
e tirei-lhe a camisa, beijei-a, senti-lhe a saliva, de novo um encontrão e caíram livros
ela baixa-se e tira-me o caralho das calças e ele salta e ela ri-se e beija-mo e depois continuamos por aí fora e lembro-me de ver a boca dela a descer-me pelo pau à luz breve da lua numa biblioteca às escuras e olhei para um livro e vi os nomes nas lombadas mas naquele momento não queria saber de nada disso só queria saber do calor da boca dela a chupar-me a piça
e acabámos a foder em cima de livros, como animais, ela a rir-se, com aquele abandono de quem gosta de sexo porque sim, porque gostamos, porque somos nós e estamos na biblioteca às escuras e é bom
as folhas de livros sujas por baixo de nós, enquanto a penetrava sentia capas e picarem-nos a pele, folhas de livros a sujarem-se da minha esporra, dos fluidos dela, a entrarem-lhe no cu apertado por mim em cima dela, as folhas a misturem-se com o suor do rego dela e com pelos que saltavam dos meus colhões enquanto investia de pau erecto para o calor de gruta e de animal da cona dela a abrir-se à minha passagem e a ouvirem-se os ruídos habituais quando os corpos se regam e se rasgam
os livros partidos e dobrados e nós com aleijões na pele dos cantos das capas duras e páginas pelos cabelos como migalhas e sujos tínhamos páginas manchadas com sémen, custo e lava e levantei-me, na escuridão da biblioteca
e senti uma ternura infinita por aquela mulher acabada de ser fodida por aqueles cabelos que me lembravam flores amassadas belas e perdidas e ao ver o inocente sorriso dela beijei-a com a fraqueza boa que vem depois de me vir e peguei na mão dela e com livros sujos dos nossos corpos nas nossas mãos
entrámos nus e desgrenhados pela sala de conferências e depressa todos olhavam para nós e nós de mãos dadas nos dirigimos ao palco e gritei então
aqui tens livros com restos de foda e agora come-os e enche-te de palavras a sério
e depois do choque inicial eles começaram a debitar enormidades sobre a necessidade de chocar que algumas almas têm e eu acabei por piscar o olho a ela e dali a pouco estava a fazer-lhe um minete contra a mesa dos debatentes, que desapertavam as gravatas um pouco incomodados
diria mesmo muito incomodados
enquanto eu a fazia arquear as costas com a minha língua no grelo dela
até acabar a senti-la arfar e vir-se em gritos absurdos e bons e levantei-me e fiz as devidas vénias ao público que me aplaudia depois da demonstração inédita de como se faz uma mulher feliz só com uma mera língua e todos de pé me aplaudiam e ela levantava-se feliz e vinha fazer vénias também
e logo a seguir autografámos muitos livros de autores desconhecidos, sujos do nosso suor, sangue e sémen, entre sorrisos comovidos e palavras de circunstância de pessoas compostas que gostavam de ler livros para mudar de vida.
Sou uma espécie de metralhadora, que dispara em todas as direcções, para ver se alguma coisa cai.
Sou uma espécie de poeta que não sabe escrever poesia.
Sou uma espécie de liberal com complexos de esquerda.
Sou uma espécie de monárquico que não se importa com a república.
Entre outras coisas, sou um bicho estranho, ilógico e incoerente, que gosta de mulheres, em todos os sentidos (de conversar, delas enquanto seres e delas de todas as formas e feitios).
Sabem que não sou propriamente muito católico. Sou demasiado libertino para isso. (Isto é: gosto demasiado de sexo para conseguir cumprir tudo o que a Igreja exige e que a mim não faz confusão nenhuma, porque não andam aí com paus a bater em quem não cumpre, ao contrário do que se pensa.)
Mas agora vejam lá os comentários a este post. O Daniel Oliveira é bastante inteligente e sabe que lá por não se ser católico e não se gostar deste papa não quer dizer que não se possa concordar com ele (e às vezes concordar mal). Mas as pessoas que comentam... Leiam lá a Madalena Madeira. Depois falamos.
Pois, a questão é complicada. O que fazer perante uma mulher muito atraente, uma "gaja boa", um espécime perfeito da fêmea biologicamente adequada para o macho do homo sapiens?
Reparem, se colocarmos a questão em termos animais ("espécime", "fêmea", "homo sapiens"), podemos ficar satisfeitos por estar a ser muito "cool", muito "somos todos animais, vamos mas é comer-nos", mas estamos a fugir a algo muito importante: somos pessoas que se podem ver ou não (o que pode ser ou não enganador) como animais. Ou seja, podemos até fingir que não somos. Podemos imaginarmo-nos como animais puros e brutos ou como outro ser qualquer, até anjo.
O que provoca situações dolorosas e deliciosas ao mesmo tempo: como quando um homem, com todo o desejo a borbulhar dentro de si, tenta domar-se para considerar aquela amiga com cara angelical como um ser acima de qualquer perversidade, como uma pessoa, um anjo, um ser "dotado de dignidade", o que quer sempre dizer algo que, por mais que se tente, está longe daquilo que o homem deseja fazer, naquele momento, em qualquer lado. Porque ele quer colocar-se nela, aproveitar o corpo, fazer-lhe literalmente um filho, mesmo que não queira, literalmente, um filho.
Obviamente, numa era que se diz descomplexada, conseguimos separar as coisas e considerar os outros e outras como pessoas e mesmo assim desejá-los intensamente, fantasiar, inventar situações em que somos animais, mas tudo não passa duma brincadeira, ou pelo menos parece que não passa. Há até quem reconheça que se diverte a imaginar-se na cama com as amigas ou amigos sem que daí venha mal ao mundo. Mas há sempre um desvio, uma incomodidade por andarmos na corda bamba, a desejar-nos como animais e a imaginarmo-nos como outros seres, que se desejam. Senão, porque será tão difícil descrever esses mesmos actos imaginados com os amigos, a forma concreta como os imaginamos e queremos?
Sei que isto já soa a lugar-comum, mas a verdade é que nós, homens, temos milhões de anos em cima de nós a exigir-nos que espalhemos a semente. Isto não é desculpa de mau pagador! Não sou nenhum santo, mas não engano ninguém. Quando estou só com uma pessoa, estou mesmo. Mas, de facto, sinto em mim a necessidade imperiosa de escolher uma rapariga biologicamente adequada (também conhecida como "boa") para lhe deixar a semente de forma a deixar progenia. Como a progenia, para os homens, é coisa que nem sempre tem consequências, a nossa preocupação é assegurar que acontece e em grande quantidade. Qual mais se semeia, mais se colhe, com a cambiante de que aqui, quem colhe não somos necessariamente nós. Resultado: somos biologicamente cabrões: comemos e vamos embora e o resto que se lixe.
Obviamente que contra isto lutamos e mudamos e conseguimos ser pessoas bem melhores do que os animais que temos dentro de nós. Mas temo-los. Não duvidem. E isso também é bom, se forem "domesticados", o suficiente para não destruirmos a vida à outra metade da humanidade, mas não de tal forma que nos tire certos lampejos de brutidão que dão o sal à vida masculina. Seja como for, esta é uma luta de milénios e nunca acaba.
Já as mulheres precisam de escolher a melhor semente para garantirem que a progenia de que vão ter de cuidar é boa e adequada e a vai perpetuar com as qualidades necessárias e evolucionariamente testadas. São outros critérios.
Seja como for, neste caldo de necessidade masculina de espalhar a semente e a necessidade feminina de escolher a melhor semente, quem manda são elas. E ainda se divertem com os cabrões que escolhem para ir para a cama e depois ficam com os santinhos para as ajudarem a criar os filhos.
Na sequência do meu post anterior: a solução é sempre mais liberdade. Que eu tenha a liberdade de ser catalão completamente em Barcelona, em Madrid, onde em quiser, e que um andaluz que vá para Barcelona possa ser andaluz à vontade.
Sim, há uma maneira de eu aceitar Espanha sem que a Catalunha fique independente: é que a Espanha se torne um estado neutro em termos nacionais. Até agora, para se ser realmente espanhol, era preciso ser muito castelhano. Por isso, as "catalanizações" pareciam sempre anti-espanholas. Mas quero uma Espanha como o Reino Unido: um galês e um escocês, que eu saiba, são tão britânicos como os ingleses (mas não são -- e fazem questão de o dizer a toda a hora -- ingleses). Por isso, basta que eu, ao falar catalão, seja considerado tão espanhol como um madrileno a falar espanhol. Dito isto, até nem me importo que o espanhol seja obrigatório em toda a Espanha. Ou até podia ser o inglês. Desde que nos entendêssemos e a Espanha não fosse o domínio de Castela.
Em resumo: Espanha, só quando for tão neutra que os portugueses se sintam bem em lá entrar e não deixem por isso de ser portugueses como até agora.
Aí direi: Visca Espanya!
Vou lembrar-vos:
a) Sou, acima de tudo, catalão. A Espanha devia retirar-se já do meu país. Não suporto ver a invasão (que existe desde 1714) e por isso sou feliz por ter sido criado em Portugal.
b) Sou monárquico. Quero lá saber dos princípios de que todos temos direito a ser chefes de estado. Não temos. Mais vale preparar o coitado que vai lá parar e, pelo caminho, ficarmos com um símbolo nacional e tudo isso. Seja como for, o que interessa é que é mais bonito. Mas giro, se quisermos.
c) Sou um cabrão dum libertino. O meu grande objectivo é provar o maior número possível de mulheres. Até sou simpático e elas gostam. Mas não me interessa muito. Quero chupar a vida até ao tutano (e, sim, vou cair no fácil, e dizer que também gosto que me façam isso a mim).
d) Sou liberal. A direita e a esquerda são formas iliberais de ver a política. Liberdade total, com responsabilidade total.
e) Fisicamente, sou lindo. Dizem.
Falta sexo no mundo. Garanto-vos! É preciso mais liberdade e é preciso desempoeirar cabeças.
Se dois amigos gostam um do outro, qual é o problema de haver contactos mais íntimos entre eles: uma amiga agradece um favor a um amigo usando a mão. Qual é o problema?
Trocam-se namoradas, mulheres, tudo o que for preciso. Qual é o problema?
Acima de tudo, o que é preciso é liberdade.
Quanto às consequências, cada um terá as suas. É preciso saber quais são e aplicá-las e não deixar que se fuja com o rabinho à seringa, mas, dito isto, quanto mais foda melhor.
O mundo seria bem mais divertido.
(Talvez um pouco mais injusto, pelos parâmetros saloios de hoje em dia.)
Mas pronto, acredito que a rapariga não goste que lhe digam que está a esforçar-se para ser puta. A sério, há quem ache isto ofensivo!
Aqui.
Pelo menos há gente que assim ouve falar da Catalunha.
Eu até gosto da Helena. A sério. Mas nunca vou tentar que a língua dela não seja ensinada no país dela como língua principal.
Mas pronto, tenho um interesse especial no assunto.
Pois é, agora numa nova plataforma (o Sapo), o Livre e Catalão voltou.
Como sempre:
Monárquico
Liberal
Libertino
Catalão
E por aí fora...
Definição de belo: o que induz estado de contemplação e, simultaneamente, ardente desejo físico.
O que realmente atrasa a educação deste país não são os professores nem os alunos, mas a ausência de cultura em casa: o constante arrazoado contra a "teoria", contra "eles", contra os "livros", o defender do ideal do trabalho infantil, etc., etc., etc.
De resto, estamos cada vez melhor. Essa influência nefasta vai dissipando-se ao longo das gerações. Mas não deixa de ser muito portuguesinha.
Mulheres bonitas num blogue retiram seriedade à coisa?
Devia aplicar uma quota de fotografias masculinas?
Para que serve um blogue?
O interior da pele, pelos dedos, os fiapos de roupa, pelo chão, o sabor salgado nos lábios e o ardor de álcool nos olhos e o peso bruto até ao interior do ventre. Os sons e suores secretos, o movimento subterrâneo da carne e o aperto periogoso. O suor da pele, o emaranhado dos cabelos, o sujo dos movimentos, o suplicado dos olhos, o molhado dos músculos, a o ardor do peito, a violência das nádegas, o sabor da mulher, o calor intenso, os sons sem razão, os lábios entreabertos e os olhos semifechados,
a ferida por sarar, o vermelho do sangue, o apetite pela cor, o calor do que não se diz, do que se sente no alento final, na pulsão final, na pressão final,
a morte doce e o sabor triste do que acaba e é efémero e é da carne e é de nós e não se diz e não se explica. E dormir, e dormir, ardidos. Até amanhã, quando tudo recomeça.
Jorge Gabriel, na RTP1, há poucos minutos, dá um exemplo do armanço ao pingarelho português. Ironizou sobre o "corte do 7", esse estranho fenómeno totalmente incompreensível para muitas almas, em que nós, comuns mortais imersos na mais profunda ignorância da verdadeira e sagrada caligrafia, cortamos o 7.
Já muitas vezes ouvi o argumento: se nos teclados o sete não está cortado, porque o cortamos quando o manuscrevemos?
Ora, porque razão não haveríamos de o fazer, se todas as letras têm versões diferentes em versão tipográfica e manuscrita? A questão é apenas de garantir a diferenciação entre os vários símbolos e o corte do 7 garante a diferenciação em relação ao 1. Não se trata de qualquer regra, trata-se de bom senso e segurança contabilística, no mínimo.
Os armados ao pingarelho armam-se destas ultracorrecções fetichistas (outra delas é o "queria ou quer" dos cafés) para mostrarem que são superiores a todos os outros, que eles acham armados ao pingarelho e que no fundo fazem gestos de tão profunda ignorância e insensatez como cortar o 7 ou dizer "queria um copo de água".
O exacto problema do país são os juízos apressados e os convencimentos saloios de que falava Pacheco Pereira há uns tempos.
Sabes que todos temos a boca cheia de liberdade. Ouves dizer muitas vezes que a liberdade é um valor essencial e todos se acusam de querer tirar a liberdade uns aos outros. Até os grandes crápulas e tiranos da história disseram muitas vezes que defendiam a liberdade. Podes perguntar-te por que raio de razão é a liberdade tão importante. Não poderíamos todos lutar pela felicidade? Ou pelas conquilhas, já agora? Mas repara bem: com liberdade, podes decidir a tua felicidade. Sem liberdade, há outros que sabem bem melhor como te fazer feliz. A liberdade não é só um aspecto formal da vida. É a capacidade de te refazeres todos os dias e de te prenderes ao que queres, de perderes a tua liberdade pelo que te interessa e pelo realmente queres. A liberdade é o crédito com que nasces e gastas ao longo da vida. Que valha a pena. Luta por ela. Está sempre em perigo, porque para muitos, que têm muita liberdade na boca, o que interessa é a perfeição, é não verem a liberdade suja e incómoda dos outros à sua porta. A limpeza, a beleza, a felicidade. Esses são os deuses dessoutros que não querem a tua liberdade. Defende-te.
Lê bem: Abrupto; Origem das Espécies; Geração de 60
Definitivamente, dizer-se que se é de direita ou de esquerda é simplesmente demasiado simplista.
Não sou de esquerda, embora defenda quase tudo o que a esquerda defenda que aumente o nosso grau de liberdade.
Não sou de direita, porque em muita direita não posso dizer coisas como "desejo intensamente estar com aquela determinada mulher a copular sem intuitos reprodutivos".
Sou libertário. Sou um liberal à antiga. Um liberal à americana, até, se quiserem. Sou anglo-saxónico, catalão, burguês, oitocentista, liberal-anti-absolutista-liberal, ou seja, quero poder dizer que me apetecia estar numa tenda no meio duma floresta a comer uma sueca e ser feliz assim.
Entre esquerda e direita sou assim: como Popper, acho que a sociedade deve diminuir o sofrimento (e aí até posso ser de esquerda) e não aumentar a felicidade: isso é com a liberdade de cada um.
P.S. Gostava ainda de dizer aos quatro ventos que pessoas que dizem que prejudicar a saúde não é um direito (como um leitor da Visão) não percebem nada de nada.
Daniel Oliveira, no Expresso de há oito dias, diz:
Não deixa de ser assustador saber que o homem mais poderoso do mundo, que decidirá muito das nossas vidas nos próximos anos, começa a ser escolhido como se fosse presidente de uma filarmónica.
Os sistemas perfeitinhos podem ser apanágio da esquerda (como todas as racionalidades sociais que se impõem alegremente aos outros), mas em Iowa os candidatos à presidência têm de ir aos cafés e aos bailes de aldeia falar com os eleitores.
Quantos sistemas matematicamente proporcionais se podem gabar do mesmo?
Este blogue foi e é inconstante.
Por vezes, custa inventarmo-me todos os dias.
Mas aqui estou.
Nos blogues, nas blogosferas que por aí há, a criação é importante: criação de nós, do nosso nome, das nossas ideias. Como uma massa diferente do mundo do dia-a-dia, experimentamos, discutimos, vivemos em paralelo e de repente, como o mito, o mundo real deixa-se penetrar por esse outro mundo.
Mas neste mundo dos blogues, as coisas são sempre arrevesadas, vistas em diagonal, com outras vestes, outros sorrisos, outras certezas.
Por vezes, mais verdadeiras.
O que nos apetece sempre é ficar com as nossas certezas, nunca ouvir os outros, pensar que o que vivemos nos dá o direito de decidir quem está certo e errado definitivamente.
Afinal, o que os outros viveram só os engana e o que nós vivemos mostrou-nos o mundo como ele é.
Ou não?
Tive um ano sabático, poucos meses depois de começar o blogue. Lamento, mas a vida real é mais importante do que qualquer alter ego num blogue.
Vamos a ver se é desta que isto recomeça, sem certezas.
Por todas as razões, Bloomsbury Recalled é, há cerca de dez anos, um dos meus livros de cabeceira. Numa altura em que tanto se traduz (e mais de metade é lixo), por que será que os nossos editores ignoram sistematicamente certo tipo de obras? [Da Literatura: OS BLOOMSBERRIES]
"Pessoalmente acho as autonomias uma pantomina: fazer flores com o dinheiro dos outros é fácil."
Esta liberdade terrível inclui a liberdade de nos sujeitarmos a violências contra as quais podíamos muito bem lutar. Inclui a liberdade de não usar a liberdade. Inclui a liberdade de sermos irresponsáveis ou responsáveis.
Limitações à liberdade
Essa liberdade absoluta só é limitada por dois factores: a violência dos outros e as nossas próprias limitações. Se pensarmos bem, estas duas limitações, na realidade, são só uma: os limites das nossas capacidades (de nos defendermos, de sermos criativos com a liberdade, de concretizar os nossos desejos).
Ora, a função principal da sociedade enquanto tal é dar-nos a oportunidade de sermos ou não criativos com a nossa liberdade (ou seja, estar sossegada) e impedir a violência duns contra os outros (agarrar-me nos braços ou dar-me um tiro, no caso apresentado acima). Ou seja, maximizar a nossa liberdade, livre de violência.
A Qualidade da Liberdade
Agora, significa isto que aquilo que fazemos com a nossa liberdade é igual, seja o que for que façamos? Claro que não: a liberdade pode ser utilizada de forma melhor ou pior. Posso ter demasiados vícios, posso deixar-me influenciar por tudo o que me dizem, posso ficar fechado em casa, posso não querer saber nada, posso funcionar como uma peça numa máquina cega, posso acreditar em ideologias que limitam o mundo a um conjunto restrito de regras e explicações. Posso fazer isto tudo. Para mim, pessoalmente, isto significa um fraca qualidade da liberdade.
Ou seja, a liberdade é absoluta, mas pode ter mais ou menos qualidade, pode ser utilizada de formas distintas, com diferentes valores (nem tudo é igual). Podemos avaliar a liberdade dos outros, tentar influenciá-los a utilizá-la da forma que achamos mais indicada para eles (ou para nós). Somos livres de o fazer. Devemos fazê-lo, em certos casos. Podemos sempre não o fazer. (A ética, que existe e não é relativa, não limita em nada a nossa liberdade, a não ser que o queiramos - e eu, por mim, quero.)
No final, só cada um de nós pode avaliar de forma activa a qualidade da sua própria liberdade. Só cada indivíduo pode realmente julgar a forma como é livre e pode alterá-la. Só cada indivíduo sabe se quer ser (ou se sabe ser) responsável ou irresponsável, curioso ou castrado, influenciável ou bicho do mato.
Por mim, a liberdade deve ser sempre irreverente, curiosa, salgada, consciente do que existe e do que é bom, dos outros, das relações com os outros, das liberdades dos outros; deve ser uma liberdade aberta a tudo o que existe, a esse mundo que não pedimos mas que ainda assim nos
apareceu à frente. Em relação aos outros, sei o que penso do que fazem com a liberdade deles, mas não posso e não devo tentar violentar a liberdade deles, primeiro, porque são livres, segundo porque não há ninguém que me consiga provar sem sombra de dúvidas que a minha liberdade é melhor do que a deles (mas mesmo que fosse...).
Em relação às violências exercidas sobre a nossa liberdade, cada um decide o que fazer: sujeitar-se ou lutar, ignorar ou conhecer, ironizar ou servir de papagaio. No caso das liberdades que desejamos mas que estão para lá do nosso alcance, só nos resta escolher, livremente: lutar por mudar e alcançar ou conformarmo-nos. Por vezes, a melhor liberdade implica conformarmo-nos com alguns dos sonhos impossíveis, para podermos desfrutar da liberdade que temos e podemos utilizar. Mas tudo depende de cada um. Aí está o que é terrível, difícil, solitário na vida humana. Precisamente, humana.